segunda-feira, 20 de setembro de 2010

hoje me sinto um recipiente para a poesia...

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso,tenho em mim todos os sonhos do mundo.

...A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores.
E quando havia gente era igual a outra.
Saio da janela,sento-me numa cadeira.Em que hei de pensar?...

...Serei sempre o que esperou que lhe abrisem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim!Não ,nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol ,a sua chava,o vento que me acha o cabelo
E o resto que venha se vier,ou tiver que vir,ou não venha.
Escravos cardiacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama,
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saimos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

trechos da Tabacaria-Fernando Pessoa

...como uma garrafa esperando o liquido respectivo...

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